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A Arte está na Rua

Publicado em 2 de Novembro de 2007

“The Art we look at is made by only a select few. A small group create, promote, purchase, exhibit and decide the success of Art. Only a few hundred people in the world have any real say. When you go to an Art gallery you are simply a tourist looking at the trophy cabinet of a few millionaires.”

Banksy

Sempre tive uma reacção um pouco ambivalente em relação ao “mundo institucional da arte”: se por um lado alguns dos artistas mais reconhecidos por esse mundo me tocam, por outro um substancial número deles não me dizem absolutamente nada.

Independentemente do maior ou menor valor intrínseco de uma obra de arte, é indesmentível que a sua “consagração” está directamente dependente de um complexo, mas reduzido, grupo de actores sociais e colectivos (críticos, galerias, Estado, mecenas, etc.) que define o que é e o que não é arte merecedora de ser apreciada.

Tenho uma noção muito própria do que considero arte: qualquer obra que me faça viver uma experiência de alguma forma disruptiva com a realidade ou que amplie ou me faça questionar essa mesma realidade. É óbvio que a minha apreciação, consciente ou inconscientemente, é fortemente influenciada pelo “mundo institucional da arte”, e vejo esse papel de mediação na identificação de artistas e obras como algo de positivo. Contudo, agrada-me sobremaneira que existam paralelamente outras esferas de legitimação mais “democráticas”.

Condicionado por este esquema mental, nos últimos anos comecei a reparar na nova vida que ganharam as ruas das cidades portuguesas. Não me refiro às actividades institucionais ou empresariais, que certamente contribuíram para a dinamização de espaços públicos, mas sim à manifestação expontânea de inúmeras “vozes” materializadas em graffitis, stencis, stickers, paste ups e outras técnicas do que se pode denominar de street art - que designarei neste artigo de arte de rua.

Este movimento, que se faz sentir de Lisboa a Nova York, de Tóquio ao Rio de Janeiro, encontrou na Internet e na banalização dos dispositivos de captação de imagem os veículos para a redefinição e amplificação do seu espaço de intervenção.

A arte de rua (AR) está longe de ser uma novidade em Portugal, mas a sua crescente presença nas nossas cidades merece uma reflexão crítica que nos permita equacionar a sua prática e existência. Até porque seria imprudente ignorar uma das mais antigas formas de expressão artística e o maior movimento artístico da história da humanidade

O que é a arte de rua?

“Street art is any art developed in public spaces — that is, ‘in the streets’ — though the term usually refers to art of an illicit nature, as opposed to government sponsored initiatives. The term can include traditional graffiti artwork, stencil graffiti, sticker art, wheatpasting and street poster art, video projection, art intervention, and street installations. Typically, Street Art is used to distinguish contemporary public-space artwork from territorial graffiti, vandalism, and corporate art.”

Answers.com

No sentido estrito podemos definir a AR por:

  • Espaço onde é exposta - a rua.
  • Caracter subversivo - regra geral é produzida em propriedade privada ou pública.
  • Abertura à participação - a partir do momento em que é produzida abre-se um diálogo aberto a quem quiser intervir.
  • Efemeridade - a probabilidade de um trabalho ser destruído é significativa.

Pode ser abstracta, de intervenção social e política ou ter como objectivo a simples disseminação de uma tag ou imagem.

No entanto, com a progressiva aceitação institucional e social da AR a sua definição vai-se diluindo. Ao entrar no circuito de arte convencional, com a crescente procura de obras por parte das galerias, a edição de revistas especializadas e a licitação de trabalhos de alguns dos artistas em leilões, perde parte da sua componente subversiva, circunscreve o diálogo e deixa de ser efémera.

Acresce ainda a crescente utilização da AR por marcas comerciais que, na tentativa de chegar as camadas mais jovens da população, a instrumentalizam e contrariam o “espírito libertário” que lhe é inerente.

História

“Grafite ou Graffiti (do italiano graffiti, plural de graffito) significa “marca ou inscrição feita em um muro”, e é o nome dado às inscrições feitas em paredes desde o Império Romano”

Wikepedia

A AR é uma das mais antigas formas de expressão artística. Mesmo não considerando a arte rupestre da pré-história, podemos traçar as suas origens até ao antigo Egipto.

As inscrições nas paredes dos várias cidades do Império Romano, com particular ênfase em Pompeia, são particularmente conhecidas e constituem uma recurso precioso na reconstituição histórica daquela época.

Os romanos escreviam nas paredes e monumentos todos o tipo de inscrições, tais como insultos a alguém de quem não gostavam, declarações de amor à mulher amada, frases de apoio ou crítica política a uma das facções do senado ou a um imperador e citações de escritores famosos, entre muitas outras.

Muitos outros povos, em diferentes épocas da história, recorram ao graffiti como forma de expressão individual ou colectiva, desde os Maias aos Vikings, passando pela tropas napoleónicas, ou pela época da renascença.

Já no século XX, nos finais dos anos 60, um jovem carteiro, de seu nome Demetrius, pode ser considerado um dos percursores da AR actual. Este jovem, durante os seus percursos de distribuição de cartas, espalhou a sua tag, Taki 183 (Taki como diminuitivo de Demetrius e 183 o número da rua onde vivia), pelas ruas de Nova York. O aparecimento da inscrição Taki 183 despertou a curiosidade da imprensa tendo sido referida em inúmeras publicações.

“I have been drawing in the subway for three years now, and although my career aboveground has skyrocketed, the subway is still my favorite place to draw. […] In this underground environment, one can often feel a sense of oppression and struggle in the vast assortment of faces. It is in this context that an expression of hope and beauty carries the greatest rewards.”

Keith Haring

Um pouco mais tarde, no início dos anos 80, Keith Haring, artista que posteriormente seria adoptado pelo mainstream e reproduzido até à exaustão em todo o tipo de merchandising, começou a desenhar a giz no metro de Nova York aproveitando os painéis pretos que eram colados nos locais reservados a publicidade quando não havia suficientes anúncios para preencher esses espaços.

A partir de meados dos anos 90, com a vulgarização da Internet comercial, assistiu-se a um crescimento exponencial da AR.

A Internet veio mudar radicalmente o processo de divulgação de uma obra: se dantes um artista que quisesse divulgar a sua obra tinha necessariamente de a colocar em locais de grande visibilidade, após a massificação do acesso à Internet pode coloca-la em qualquer local, fotografa-la e divulga-la mundialmente. A Internet tornou a AR globalmente inclusiva; mas simultaneamente descontextualizou as obras do seu contexto de produção.

“Imagine a city where graffiti wasn’t illegal, a city where everybody could draw wherever they liked. Where every street was awash with a million colours and little phrases. Where standing at a bus stop was never boring. A city that felt like a living breathing thing which belonged to everybody, not just the estate agents and barons of big business. Imagine a city like that and stop leaning against the wall - it’s wet.”

Banksy

Nos últimos anos Banksy tornou-se incontestavelmente a figura de proa da AR, pautando a sua intervenção pelo “agnosticismo técnico” - afirma usar a técnica mais eficiente para o contexto específico em causa -, e pelas suas orientações anti-capitalismo, anti-governo, anti-guerra e pro-libertárias que são quase invariavelmente temperadas com uma boa dose de humor.

É um provocador nato, com especial apetência para dominar o mundo dos media, onde é destaque recorrente. A esse facto não será certamente alheia a escolha dos seus “alvos”, de que saliento aqui alguns exemplos ilustrativos:

Banksy conseguiu não só dar a conhecer a AR a um público até aí alheado desse fenómeno, como sensibiliza-lo para a arte em geral. O que não deixa de ser irónico que um artista iconoclasta, passe o paradoxo, seja a porta de entrada de muita gente no mundo da arte…

Contudo, Bansky é, também, a prova viva da tal diluição do conceito de arte de rua, pois as suas obras atingem hoje em dia valores astronómicos na Sotheby’s e os seus actos são cirurgicamente pensados para causar impacto nos media. Banksy tem tanto de artista como de marketeer

Para além do bem e do Mal

“My ideal is a do-it-yourself city. I want to see more hands on, more participation, less gray mask of civic order. I’m interested in how we can command more uses of our streets. It sounds aggressive, but I also want to be playful and joyful. Once walls become used as a message board, I think, “If you’re talking to me, I’m going to talk back.”

swoon

A AR provoca reacções de sinal contrário: por um lado, as mentes mais conservadoras rejeitam linearmente qualquer tipo de intervenção não autorizada em propriedade pública ou privada, por outro, os defensores da AR consideram que esta contribui para o enriquecimento do espaço urbano. Provoca, também, reacções mais moderadas e voláteis no “público em geral”, que tem tendência para apreciar os trabalhos que considera de maior qualidade e considerar vandalismo o resto.

Um dos principais argumentos dos defensores da AR é o da comparação directa com a publicidade. Este argumento baseia-se no facto da AR, regra geral, ser feita nos mesmos sítios onde se faz publicidade, sendo os primeiros perseguidos pelas autoridades e os segundos não. Outro argumento centrado na publicidade é de que a partir do momento que existem mensagens nas paredes nós temos o direito de responder, i.e., se as paredes “falam” connosco porque não haveremos de ter o direito de responder?

A questão torna-se mais complexa se tivermos em consideração que as empresas recorrem cada vez mais ao imaginário da AR para tentarem chegar junto das camadas mais jovens. Ao tentarem chegar aos jovens por esta via as empresas estão também a contribuir para a própria legitimação da AR. O que acaba por ser um pouco contraditório porque uma parte considerável dos aristas e colectivos assume-se como anti-publicidade (Graffiti Research Lab, Anti-Advertisement Agency, etc.).

“With my easel paintings, it’s always been clear; they’re products, they come from the heart and if I’m lucky they’re gonna be sold to rich people. No conflict. It pays for my street stuff.”

Dan Witz

Muitos artistas de rua optam por uma abordagem “mista”, i.e., entram no circuito institucional e/ou comercial da arte, mas continuam a intervir na rua. Sendo que a primeira opção muitas vezes financia a segunda; outros, optam por uma postura mais radical rejeitando qualquer tipo de “institucionalização” do seu trabalho.

Independentemente das posições mais ou menos puristas, é incontornável que a AR tem uma importância de peso na cultura das sociedades actuais. Apesar da enorme variedade de objectivos, temas abordados e técnicas utilizados, a Internet, ao viabilizar a comunicação e colaboração entre artistas e entre estes e os seus púbicos (com o colectivo Wooster a desempenhar um papel determinante), permitiu que a AR se constitui-se enquanto movimento artístico, o maior movimento artístico da história da humanidade.

Síntese

A minha ligação à AR resume-se à observação e à captação em imagem de alguns trabalhos. Quanto a juízos de valor, encontro-me um pouco na “corda bamba” entre os apologistas e os críticos. Se por um lado, a AR, conjuntamente com algumas formas de arte digital, é actualmente o tipo de arte com que mais me identifico; por outro, não são raras as vezes que me revolto com o que considero puras manifestações de vandalismo. Mas onde está a fronteira? Quem define o critério?

Por considerar que a AR é uma forma de expressão que merece ser preservada, fundei com o amigo Bolastik dois grupos no Flickr, o Lisboa Street Art e o Portugal Street Art. Contudo não são raras as vezes que pondero a hipótese de deixar os grupos por considerar que alguns dos “trabalhos” retratados nos fotografias adicionadas ao grupo são puro lixo. Recuso-me, no entanto, a censurar qualquer tipo de trabalho.

Na AR agrada-me sobretudo a expressão artística não condicionada por uma elite de eleitos, a sua democraticidade. Isto não significa que questione o papel desempenhado pelo “mundo institucional da arte”, ou que não valorize a sua função de filtro. São duas realidades distintas que se complementam.

A discussão em torno da AR será sempre tendencialmente extremada, até porque tem subjacentes ideários de sinal contrário. Procurei, com este artigo, contribuir para que essa discussão não seja feita no vazio, mas sim informada por alguns factos e questões que me parecem pertinentes.

Para terminar, deixo-vos algumas sugestões de links e uma “compilação” de vídeos focados nas temáticas e artistas de que falei aqui.

4 Comentários | Comentar

Parabéns por este artigo!
Está fantástico, as imagens e vídeos…!

Aguardo as próximas novidades :)
Joana Viana

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Joana
5 de Novembro de 2007
12h:54m

Grande!

abraço bolástiko

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Mr Bola
5 de Novembro de 2007
23h:16m

Finalmente vejo a Fenix renascer das cinzas…

Fui um dos pioneiros do Graffiti em Lisboa, e sonhei com a participação positiva dos criativos no valor acrescido da cidade… infelizmente com a passagem da contra cultura a cultura (rápida metamorfose inevitavel com o aparecimento das marcas…) senti-me sem força para lutar como praticante, decidi enveredar pela teoria, e dai estar a desenvolver a relação com a IxDA, bom para mais contacta, vou ficar atento.

ex - Uber, http://pwp.netcabo.pt/0246569501/uber/

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Pedro Soares Neves
12 de Dezembro de 2007
16h:51m

Gostei bastante do teu artigo. tenho um blog sobre a arte em setúbal. Passa por lá.
Aguardo mais noticias

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maria elisa
5 de Janeiro de 2007
21h:25m

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