Após umas curtas, mas retemperantes, férias na Costa Vicentina, quero aproveitar estas notas soltas para vos falar um pouco sobre o lado negativo da fantástica aventura que tem sido o Survs.
E porquê escrever sobre este assunto? Talvez porque necessite de verbalizar o que sinto numa espécie de catarse pública; e também porque a minha experiência poderá servir de exemplo para os workaholics que por aí andam.
Não terminarei o artigo sem antes vos passar as habituais dicas gastronómicas e falar de um blog muito especial.
Ó tempo volta para trás…
Afinal queixo-me de quê? De tempo, ou melhor, da falta dele para estar presente em todos os “espaços” em que queria, e devia, marcar presença.
As consequências de uma aposta forte num projecto “paralelo” totalmente feito nos “tempos livres” é que todo o “resto” da nossa vida tende necessariamente a ficar para trás.
Estava consciente desta situação, porém vivia na ilusão de que todos os que me rodeiam percebiam o que implica o Survs.
Mas de um momento para o outro deparei-me com múltiplos alertas daqueles que gosto de ter perto de mim. Todos se queixavam do mesmo: da minha ausência.
Apesar de a minha memória também se ausentar frequentemente, recordo-me como se fosse hoje de uma cena recorrente durante a minha recruta no Regimento de Engenharia n.º 1.
E a história reza assim: o furriel Palma (um caricato alentejano com quem passei uma das melhores noites de copos da minha vida) gritava alto e em bom som dia após dia “senhor pimenta, só você é que está certo: tá tudo a acertar o passo pelo pimenta!”.
Estes constantes avisos durante os treinos de marcha, quando eu trocava o passo por estar perdido em pensamentos desfazados da rigidez militar, tiveram dois resultados práticos:
- (1) aprendi a marchar para não sofrer a ira dos meus “camaradas”, que tinham de constantemente acertar o passo por mim;
- (2) e comecei a ficar mais atento à possibilidade de estar errado quando toda a gente me indica o sentido oposto para o qual me dirijo.
Conclusão: os protestos daqueles que mais valorizo só podiam ter um significado: eu estava “errado”. Chegava a hora de acertar o passo.
Depois deste desabafo, em jeito de carta aberta à família (de sangue e de escolha), passemos a outras notas mais leves…
Ócio
Num acto de puro egoísmo não vos deixo aqui o contacto do monte onde passei férias na Costa Vicentina; a relação preço /qualidade é tão absurda que tenho receio que se torne demasiado conhecido. É daqueles segredos que só se transmitem de boca a orelha. Literalmente.
Contudo, posso dar-vos uma dica de um restaurante que para mim continua a ser um destino obrigatório do sudoeste luso: O Sacas.
Comecem com uma pratada de percebes, sigam para uns filetes de peixe aranha acompanhados de migas e rematem com uma feijoada de búzios. Quando vier a conta terão ainda a agradável surpresa de constatar que os preços são mais do que justos. Experimentem, garanto que que não se arrependem!
Mas foi Já em Lisboa que degustei a melhor refeição deste verão: um magnífico goraz cozinhado no forno pelo António, amigo da maggy e dono do centenário restaurante João do Grão.
Para além dos seus inquestionáveis dotes culinários, partilhar uma refeição com o António é toda uma experiência de sapiência na arte de comer bem.
Se forem apreciadores de bom bacalhau, uma visita ao João do Grão é pura e simplesmente obrigatória.
Era uma vez…
Por fim, deixo-vos aqui uma sugestão para visitarem o blog “histórias de gente simples”. Neste espaço, o José Valente, um contador de histórias nato, descreve-nos, em português da época, como era a vida rural na Beira Baixa na segunda metade do século vinte.
Quando soube que a leitura destas histórias era privilégio de poucos não pude deixar de incentivar o zé a partilhar os seus relatos, misto de ficção e realidade, com todos nós. Aproveitem para aprender como se conta uma história ;-).
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