[Entrevista] Joana Viana (2)
Publicado em 2 de Outubro de 2008
- Joana Viana
- Formadora, investigadora, gestora de conteúdos, …
Após uma primeira parte da entrevista focada no percurso académico e profissional da Joana, vamos conhecer um pouco melhor alguns dos seus projectos e saber como perspectiva o futuro.
Não posso deixar de manifestar aqui alguma “inveja saudável” pelas experiências vividas pela Joana no Projecto Teclar. Depois de lerem a resposta à primeira pergunta, e os testemunhos dos participantes, vão perceber porquê ;-).
Esta não será certamente a última “presença” da Joana neste espaço, pois tencionamos escrever em co-autoria alguns artigos sobre técnicas de investigação.
O que é o projecto Teclar? Partilha algumas experiência(s) gratificante(s) que tenhas tido no Teclar.
O Projecto Teclar, Ensinar e Aprender entre Gerações com Tecnologias, constitui um espaço de aprendizagem e partilha de experiências e conhecimentos, entre adultos com mais de 50 anos e crianças alunos do 1º ciclo, com base na realização de actividades centradas no uso do computador e da Internet.
É desenvolvido na Escola Superior de Educação de Leiria (ESEL), do Instituto Politécnico de Leiria (IPL), desde Novembro de 2005, e tem como objectivo aproximar os mais velhos dos mais novos, em termos de conhecimentos e aprendizagens, associados ao uso das novas tecnologias, mobilizando os saberes, experiências e memória individual e colectiva dos adultos envolvidos.
Adultos e crianças aprendem colaborativamente, constituindo as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) o impulso das aprendizagens realizadas, troca de saberes e interacção entre as duas gerações.
Com a sua participação, os adultos elevam a auto-estima, a auto-confiança e motivação para aprenderem; estreitam a relação estabelecida com os mais novos, netos e filhos, ao nível de conhecimentos e aprendizagens associadas à utilização das novas tecnologias, podendo desenvolver actividades juntos no computador e comunicarem pela Internet.
Por seu lado, as crianças têm a oportunidade de aprenderem temáticas curriculares e desenvolverem competências ao nível do saber ser e do saber estar, de modo não formal e não escolar, em contacto com “novos” educadores.
O blogue “Experiências no Projecto Teclar” constitui o espaço social de partilha entre todos os intervenientes (directos ou indirectos) no Teclar. Especialmente os adultos usam-no como um espaço de partilha e comunicação uns com os outros.
Desde a importância da relação entre as pessoas, a liderança e a capacidade de dinamização e de motivação num projecto como este, até à partilha de ideias, de conhecimentos, de boas práticas, de sentimentos e de frustrações… tudo é determinante para que seja possível resultar!
“Para mim, o Projecto Teclar foi como um totoloto com Jackpot, que saiu na minha vida, não no sentido do ganho material mas sim do conhecimento.”
Eugénia Ferrari
É fabuloso a forma como os adultos encaram e interpretam as novas aprendizagens que realizam, o contacto que estabelecem com este “novo mundo das tecnologias”; as possibilidades que lhes são criadas pelas competências que desenvolvem a este nível, para uma melhor integração na sociedade, comunicação e relação interpessoal, especialmente com a família e amigos!
Ver os adultos rejuvenescer no contacto com as crianças; criarem laços de afectividade como se fossem avós e netos; resolverem problemas em grupo e gerirem conflitos… é delicioso! As crianças a explicarem com doçura e espontaneidade como copiar ficheiros, como inserir uma imagem num slide do PowerPoint, como guardar as imagens da Internet para o computador, como fazer a animação da apresentação, ou como criar uma pasta…
Uma das Crescidas do Teclar diz que a Internet “são janelas sempre a abrir, a abrir para o mundo!”. É uma frase que memorizei…
É mais do que gratificante a alegria dos adultos com as aprendizagens que realizam, com o facto de comunicarem com os filhos ou netos por e-mail ou por messenger, por saberem pesquisar na Internet, navegar por todo o mundo!
“O Projecto Teclar alterou de forma positiva toda a minha vida. Além de aprender a dominar as novas tecnologias, descobri uma excelente forma de combater a solidão.”
Margarida Martins
Ouvi-los dizer e, sobretudo, presenciar o combate à solidão que foi possível para alguns dos adultos com a sua participação no Teclar, ao ocuparem parte do tempo livre ao computador, na Internet, a conversarem à noite uns com os outros, por chat (messenger, gtalk). Estarem confiantes a ajudar os netos a pesquisarem informações na Internet, realizarem os trabalhos e imprimirem!
A alegria dos adultos ao dizerem que conseguiram, que foram capazes sozinhos!
Em cada ano do projecto houve colaboração com diferentes escolas do 1º ciclo. Cada escola, com a sua especificidade, tornou o projecto mais singular e diversificado, mais motivante e pertinente para todos os intervenientes.
“O contacto com as crianças foi muito bom (…). Foram amáveis connosco, respeitaram-nos e aceitaram algumas sugestões que lhes demos. Fiquei muito sensibilizado quando ontem me cruzei na rua com uma criança do meu grupo. Eu nem dava por ela, mas a Ana Patrícia atravessou a rua para me vir dar um beijo e apresentar-me à mãe. Que maravilha! Não sei descrever o que senti…”
António Dias
Posso dizer que o Teclar constitui uma comunidade de aprendizagem, dinamizada por actores sociais, com diferentes papéis na comunidade educativa: crianças em idade escolar, adultos aposentados, professora do 1º ciclo, alunas da licenciatura em ensino básico do 1º ciclo (estagiárias), eu e a comunidade educativa envolvida (pais das crianças, familiares dos adultos, alunos, professores, etc…).
A experiência ao longo destes três anos tem sido formidável, muito gratificante, com momentos de verdadeira aprendizagem, colaboração e partilha de saberes, aquisição de valores e atitudes, emoções, convívio, alegria, amizade e boa disposição!
Cada encontro inter-geracional constituiu um momento intenso, carregado de emoções e afectividade, muito para além das aprendizagens ou aquisição de conhecimentos escolares ou no âmbito das tecnologias.
Em síntese, para mim, poder estar num ambiente tão agradável, presenciar a alegria das aprendizagens e descobertas destes adultos, aprender com a sua sabedoria, com as suas experiências e histórias de vida, e concomitantemente promover novas aprendizagens, novos conhecimentos, novas formas de usar o computador e a Internet em beneficio do seu desenvolvimento pessoal, das relações sociais, culturais e afectivas, é um enorme prazer, orgulho e satisfação! É para mim, mais do que uma realização profissional, factor de realização humana!
Escolho terminar com uma frase bem interessante para o contexto do Teclar:
“Ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar.”
Píndaro (poeta romano)
Como foi a experiência de dar aulas na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (FPCE-UL)?
Muito interessante, enriquecedora!
A grande mais-valia e o valor que retive foi o facto de poder viver, sentir, experimentar o ensino, na sala de aula, enquanto professora, quando há tão pouco tempo fui (e aliás continuo a ser) aluna!
A mistura e confronto das aprendizagens adquiridas nas duas situações têm sido riquíssimas, do ponto de vista da minha formação pessoal e profissional.
As Ciências da Educação incluem todos os processos e situações de ensino, de educação e de formação. Neste caso, tenho a possibilidade de colocar em prática os conhecimentos e competências adquiridas a esse nível, ao mesmo tempo que confronto com as experiências vividas enquanto aluna e o que sobre isso possa ter aprendido!
Para além disso, foi gratificante poder ter esta experiência nesta fase do meu percurso profissional, pouco tempo após ter concluído a Licenciatura.
O próprio contexto em que aconteceu foi muito importante para mim. Por um lado, ser a disciplina de Tecnologias Educativas, área em que tenho trabalhado e que me interessa, e por outro, o facto de ter sido responsável pelas aulas práticas, que de certa forma permitem e propiciam uma relação mais próxima com os alunos, com as suas questões, dificuldades, problemas, reflexões… exigindo essencialmente um papel de tutoria da minha parte. Não se cinge à preparação de uma aula que segue um determinado planeamento. Está “quase tudo” em aberto. Os alunos estão a realizar actividades práticas, em grupo, com estratégias e tempos diferentes.
Em termos de formação e investigação na área das tecnologias educativas, a experiência foi também enriquecedora visto que me permitiu contactar com um grupo de jovens e perceber qual a sua relação com as TIC, quais as suas atitudes, comportamentos e competências no uso das tecnologias, em que contextos as utilizam, com que objectivos.
O que te vês a fazer daqui a 5 anos?
Pergunta difícil…!
Apesar de ter alguns projectos pessoais e profissionais a médio e longo prazo (ou talvez sejam ambições), ao longo do meu percurso de vida, nas várias “frentes” nunca fui de planear a esse nível. Deixei que os acontecimentos se desenrolassem e que as oportunidades surgissem.
Contudo, tenho consciência que o empenho, a motivação e a vontade com que fui intervindo, crescendo e interagindo contribuiu para as metas que fui alcançando e o que consegui até hoje. Como diria Josso, “o que sou hoje é condicionado pelo que fui ontem e pelo que serei amanhã”.
Daqui a 5 anos espero continuar a intervir no domínio das Ciências da Educação, a formar e a formar-me, a educar e a ser educada… neste processo contínuo!
Quem sabe preparar-me para um doutoramento?! Evoluir nalguns dos projectos actuais…
Gostava de intervir noutras áreas das Ciências da Educação, que não apenas as Tecnologias Educativas. O que de certa forma vou conciliando nos meus projectos actuais: desenvolvimento curricular, educação não formal, relação escola-comunidade…
Não me imagino apenas com uma actividade profissional! Mas tudo pode mudar.
Gostaria de desenvolver e implementar um projecto de um “centro educativo”, ou seja, um espaço com articulação de vários níveis e processos de ensino e educação: desde a educação pré-escolar, actividades de tempos livres, dinamização de projectos com diversas escolas, em diversas áreas; até à animação sociocultural e desenvolvimento comunitário; para crianças, jovens e adultos!
Como é que vês a escola do futuro?
Haverá escola no futuro como a conhecemos hoje?! Tenho dúvidas…
Estou certa de que continuará a existir educação, formação, a vários níveis, … No entanto, a escola-instituição como a conhecemos actualmente não mudou desde que começou… Ou continua assim, ou se existirem mudanças, provavelmente deixará de se chamar escola!
Aprender através de outras fontes, de outros recursos, de outras ferramentas, de outras estratégias?! Talvez seja possível com a evolução das tecnologias, da investigação, da ciência, das sociedades, das práticas, das atitudes, …
Para terminar, indica-nos um livro, um disco e um filme que te tenham marcado.
- Filme – Into the wild
- Livro - Ensaios sobre educação, de João dos Santos;
- Disco – um disco é muito difícil, mas elego os Pearl Jam e a Katie Melua como bandas sonoras que marcaram a minha vida…


1 Comentário | Comentar
Ao ler esta entrevista à nossa “Professora”, “Formadora”,”Amiga Joana”, tenho que dizer-lhe do fundo coração, quanto lhe agradeço por ter criado o Projecto Teclar, que me tem permitido aprendizagens que até à pouco tempo eram impensáveis,a inter-ação com as Escolas do 1º ciclo, os momentos vividos com os mais novos e com o nosso grupo, o convivio, a partilha e uma grande amizade que nos envolve a todos.
Um grande “Bem Haja”.
GracieteRicardo
8 de Outubro de 2008
00h:55m
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