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[Entrevista] Bruno Monteiro

Publicado em 11 de Setembro de 2009

Bruno Monteiro

Bruno Monteiro
User Experience Designer

Conheci o Bruno há cinco anos atrás na primeira entrevista de emprego a que concorri após me ter despedido do millenniumbcp.pt. Ele no papel de coordenador do GAEL*; e eu na pele de candidato que não reunia um dos requisitos para a vaga – conhecimento aprofundado em web standards.

Uns tempos mais tarde recebo um email dele a informar-me que estava na short list, mas que precisava de ver a minha “arte” em web standards (que o Bruno sabia que eu não tinha)…

Encarei a provocação com um sorriso nos lábios e fiz um protótipo de web site no fim de semana seguinte e consegui o emprego. Não pensem que estava uma obra prima, mas o que estava realmente a ser avaliado era a minha pro-actividade.

Ir para o Técnico foi crucial para a minha evolução profissional, logo nunca esquecerei a oportunidade que me foi dada pelo Bruno e pelo Director Adjunto para as Novas Tecnologias na altura, Pedro Santos. Para já não falar da confiança e autonomia que tive desde o primeiro momento.

Pouco falta às nossas recorrentes discussões para atingirem um estatuto de míticas, em grande parte devido a concepções radicalmente diferentes de gestão, mas conseguimos sempre a saudável proeza de rapidamente ultrapassar qualquer atrito.

Aliás, é mesmo paradoxal que eu seja tão crítico em relação a quem me deu a oportunidade certa no momento certo, e que praticou uma gestão anos luz à frente do que conheço de outras realidades similares, colocando sempre o trabalho à frente do protagonismo… Mas é a minha natureza; é mais forte que eu…

As duras críticas com que massacrei o Bruno enquanto “gestor” nunca tiveram correspondência na apreciação que faço da sua competência técnica. Como user experience designer não penso que tenha paralelo em Portugal. E esta tudo dito.

Após a sua recente demissão da coordenação do GAEL, e de ter conseguido a tarefa hercúlea de redesenhar o web site do Técnico em tempo recorde com recursos escassíssimos, eis uma excelente altura para o ouvirmos.

* Gabinete de Apoio à Produção de Conteúdos Multimédia e e-Learning do Instituto Superior Técnico ou nome-de-gabinete-que-ninguém-fixa-dada-a-sua-absurda-extensão.

Fala-nos um pouco do teu percurso profissional e académico.

Ui! Começas com uma pergunta que exige alguma capacidade de síntese. Bom, quem ler o que acabei de escrever pensará que estás a falar com alguém que está perto de comemorar os cinquentas anos de carreira… nem tanto, amigo. Digo que é uma tarefa difícil para quem, como eu, se costuma alongar nestes relatos.

Iscte

Na verdade eu comecei a trabalhar no ano em que, terminado o 12º ano no Liceu Camões, me candidatei à universidade, pela primeira vez, e vi a entrada por um “canudo” ou seja a 0.8 pontos de distância. No entanto, estava decidido a tentar novamente no ano seguinte e empenhado em vingar na primeira opção – Sociologia no ISCTE. No ano seguinte, as provas correram melhor e consegui entrar no curso que pretendia.

Iscte

Pouco tempo depois estava a transitar do meu primeiro emprego no IST – trabalhava na reprografia, a tirar fotocópias e fazer encadernações o dia inteiro – para a Biblioteca, onde os horários eram mais flexíveis e o trabalho menos mecânico. Esta mudança acabou por complicar um pouco o meu primeiro ano como universitário porque estive a frequentar, durante cerca de 9 meses, um curso de técnico profissional de Biblioteca e Documentação (640 horas em regime pós-laboral). O meu dia era intenso: levantava-me às 6.10 da manhã, começava as aulas às 8.00, e por volta das 13.00 estava a caminho do IST. Saia por volta das 19.00 para as aulas do curso de BD. Chegava a casa pela meia-noite.

Foram uns meses cansativos, mas não me arrependo das escolhas que fiz. Não vi as minhas expectativas goradas em Sociologia e gostei imenso dos últimos anos, quando pude escolher algumas cadeiras mais especializadas, relacionadas com a área de trabalho e organizações. Interessava-me sobretudo pela forma como a tecnologia estava a influenciar as organizações e a definir novos modelos produtivos.

Por outro lado, em 1997 comecei a ficar deslumbrado com o crescimento da web, e a interessar-me por web design visto que o design era já uma paixão antiga. Comecei a fazer algum trabalho de design gráfico como freelancer e no final da década de 90 tive a ousadia de fazer o primeiro web site da Biblioteca do Técnico do qual, felizmente, já não existem vestígios! Se começar por dizer que utilizei o Frontpage, penso que os mais “standardistas” entre nós ficam elucidados… de resto, não era apenas o código que padecia de fraca qualidade. :-)

A resposta já vai longa (eu avisei)… abreviando em 2002 fui convidado para trabalhar no GAEL onde ainda estou.

Como foi a experiência de coordenar um gabinete como o GAEL?

GAEL

Foi uma experiência extremamente positiva. Apesar de, como sabes, não gostar particularmente de algumas funções inerentes à coordenação, aprendi imenso e tive a oportunidade de estar envolvido em projectos interessantes. Creio que contribuiu imenso para o meu crescimento profissional, quer como já disse pela natureza dos projectos, quer pela autonomia e “espaço” que me foi concedido em algumas dimensões do meu trabalho e pelas próprias condicionantes e restrições de trabalhar num gabinete de uma instituição pública (as dificuldades também nos ensinam, estimulando o pragmatismo e a gestão eficiente de recursos). Outro dos aspectos importantes, foi a oportunidade de trabalhar com alguns profissionais de elevada qualidade e com os quais aprendi e continuo a aprender.

Por outro lado esta experiência de coordenação limitou, de certa forma, o meu trabalho individual como web designer. Coloquei, se assim o posso dizer, menos vezes as “mãos na massa” em projectos aliciantes. Inevitavelmente, existe sempre um “trade off” ligadas a estas funções.

Trabalhas na tão mal afamada função pública há 15 anos, o que achas que devia mudar?

Acho que existe a necessidade de implementar medidas e políticas que privilegiem a eficácia, eficiência, qualidade e produtividade. Obviamente, algumas dessas medidas e reformas são impopulares e vão penalizar políticamente quem tiver coragem de as implementar. Estou a falar, por exemplo, da figura do despedimento na administração pública, de processos disciplinares que não sejam inconsequentes e de um sistema de avaliação de desempenho que esteja orientado para uma cultura de exigência, mas implementado de uma forma séria dando formação aos avaliadores e facultando ferramentas de monitorização de desempenho. A legislação é normalmente “castradora” porque se centra no controlo e não na eficiência dos processos. O recrutamento e a aquisição de bens e serviços na administração pública é um pesadelo!

Algumas mudanças estão dependentes do legislador, mas outras dependem da cultura organizacional das instituições: a existência de uma verdadeira liderança estratégica, uma gestão centrada nos objectivos, uma aposta clara na formação e requalificação profissional e uma verdadeira gestão de recursos humanos. Não é preciso estudar psicossociologia das organizações para perceber que na Administração Pública se confunde gestão de pessoal com gestão de recursos humanos.

Nada do que disse é novo. Muitos já disseram o mesmo. Eu acredito que o diagnóstico está feito há muito, mas as reformas tendem a tardar. A tecnologia e a mudança geracional trouxe à função pública melhorias significativas nos últimos anos, mas estou convencido que poderíamos fazer mais e melhor.

Estiveste envolvido numa startup, mas a experiência não correu muito bem. O que aprendeste nessa aventura?

Parece que hoje em dia é “trendy” falar de startups e empreendedorismo. Num pais que durante anos teve uma economia constituida por pequenas e médias empresas, parece-me que não nos faltaram “empreendedores”.

Bom, perdoa-me este intróito algo disperso… mas embora seja louvável que exista, em qualquer economia e sobretudo numa economia frágil como a portuguesa, um movimento a incentivar o empreendedorismo a verdade é a mesma de sempre: nem todos tem o perfil para serem empreendedores e não existe mal nenhum em trabalhar para outrém.

Na startup em que estive envolvido, na área dos jogos online, aprendi que além da ideia, quando não existe grande capacidade de investimento, é necessário garantir que existe no grupo as competências nucleares ao desenvolvimento do projecto ou que podem ser incorporadas por um custo residual.

É fundamental que se estabeleçam cenários de sucesso e insucesso que sejam comuns a todos os envolvidos. Representações distintas não favorecem a coesão. É importante definir e respeitar as áreas de competência de todos em qualquer circunstância e é absolutamente crucial escolher os parceiros certos, nomeadamente, os parceiros empresariais. Por outro lado, ter a consciência de que, de um modo ou de outro, esse projecto vai “mudar” a nossa vida, sobretudo a disponibilidade de tempo para nós próprios e para a nossa família ou amigos.

Se foi a minha “aventura” definitiva pelo mundo das startups, não faço a mínima ideia. Contudo é certo que valorizo esta experiência. Se voltar a envolver-me na criação de uma “startup” não serei tão ingénuo.

Fizeste recentemente o novo web site do técnico com recursos escassos e num prazo apertadíssimo. Como conseguiste atenuar esses factores e executar o trabalho a tempo e horas?

Contratando os serviços de uma empresa indiana… Não, estou a brincar! :)

Acho que foi fundamental ter a consciência de que era realmente necessário uma grande dedicação (com muitas horas extra), tentar melhorar a comunicação e articulação de ideias e competências entre todos os intervenientes (alguma gestão de projecto), maximizar a eficiência do processo e articulação das várias fases do projecto e ser muito pragmático.

Tive, como sabes, de ajustar as minhas expectativas de acordo com os vários constrangimentos do projecto e ter a consciência de que “produto final”, sendo um progresso significativo face ao web site anterior, poderia estar melhor. Tive, como acontece quase sempre neste tipo de processos, de ceder a opções com as quais discordo totalmente.

Há ainda muito trabalho a fazer. Espero que esse trabalho seja para tornar melhor o web site.

Por outro lado, é importante realçar as contribuições e colaborações – umas mais esporádicas, outras mais permanentes – de alguns colegas. Esse “input” foi extremamente valioso e, por exemplo, sem o meu “wingman” ;-) teria sido impossível cumprir o prazo. Além da ajuda arrastou-me diversas vezes para um belo sushi… óptimo para levantar a moral!

Indica-nos alguns dos teus “super-heróis” de design e/ou web design?

Tough that one! Deixa-me pensar … bom, tive várias influências e pessoas cujo trabalho me marcou. Lembro que o primeiro designer gráfico cujo trabalho me deixou fascinado foi o Paul Rand, acompanhei mais tarde algum trabalho da Margo Chase (uma apaixonada pelo gótico e por tipografia) e do incontornável David Carson.

Na web vibrei com o ainda existente Kaliber 10 000 do Toke Nygaard e Michael Schmidt e uma das primeiras versões da Surfstation do Thomas Brodahl. Passei imensas horas a navegar nestes web sites. As comunidades de design foram um instrumento precioso para conhecer o trabalho que se fazia na web e fora da web.

Não podia deixar de referir o primeiro livro do Jeffrey Zeldman, “Taking your talent to the Web”. Penso que poucos, ou mesmo ninguém, conseguiu expôr com tamanha clareza os benefícios e a necessidade de existirem “web standards”.

Hoje em dia, sigo com regularidade o trabalho do Naz Hamid, do Ryan Sims, Wilson Miner e Nathan Borror entre outros. Têm um talento descomunal.

Para terminar, indica-nos um livro, um disco e um filme que te tenham marcado…

Só um? É tarefa quase impossível! Assim, tenho que ser mesmo muito criterioso: “O Lobo das Estepes” de Herman Hesse marcou profundamente o fim da minha adolescência. Ui! Um disco… “Violator” dos Depeche Mode. Um só filme… não consigo. Posso fazer batota? “M. Butterfly”, “Remains of the day” (esqueci-me do título em português) e, finalmente, um que ainda está bem vivo na minha memória “Revolutionary Road”.

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